Uma vez existiu na China um
homem que, sendo possuidor de uma imensa bondade, levava uma vida pura e em
harmonia com todos os seres da natureza.
Até que um dia, Deus enviou um anjo para falar com ele, e lhe disse:
- Deus quer compensá-lo por suas boas ações.
- Não é necessário - respondeu o homem.
- E se você tivesse o Dom de curar? - perguntou o anjo.
- De maneira alguma! - disse ele - Eu não saberia como distinguir quem
merecesse ou não ser curado.
- E se possuísse o Dom da palavra que transforma? - insistiu o anjo - Você
poderia atrair as pessoas para o caminho da Verdade.
- Não quero ser venerado por ninguém. Gostaria de continuar sendo uma pessoa
simples - foi a resposta.
- Preocupado, o anjo disse:
- Não posso voltar para de onde vim sem antes ter lhe concedido uma graça, um
milagre ou um Dom. Se você não escolher, será obrigado a aceitar qualquer um.
O homem pensou por um momento, e disse:
- A partir de hoje, gostaria que o Bem que eu possa fazer ninguém perceba que
fui eu - e acrescentou - Nem mesmo eu devo saber; alimentaria a minha vaidade.
Satisfeito, o anjo fez um gesto e a sombra do homem passou a ter o poder de
abençoar e de curar. Mas isto só aconteceria quando seu rosto estivesse na
direção do sol. Desta forma, por onde ele fosse, os doentes seriam aliviados, a
terra seca se tornaria fértil e as pessoas tristes voltariam a sorrir.
Este homem caminhou muitos anos pela Terra sem jamais saber dos milagres que
realizava, pois quando o sol batia em seu rosto sua sombra sempre estava detrás
dele.
Assim, ele viveu e morreu sem nunca ter consciência da sua própria Santidade.
* * * * *
O nome deste personagem era Lao Tsé. Viveu na China no século V a.C. num
período em que o país enfrentava muitas guerras e problemas políticos.
Morou sempre sozinho, mas sempre recebia a todos com amor. Não teve seguidores,
nem nunca os permitiu. Defendia a liberdade de crença e não acreditava em
diferenças sociais. Não gostava de honrarias. Sempre que possível, evitava ter
de ir ao Palácio Real quando o príncipe o chamava.
Dotado de uma sensibilidade extraordinária, gostava de receber o amanhecer
caminhando pelo bosque, respirando e meditando com a brisa matinal. Contam que
nessas caminhadas houve um soldado que o seguia de longe. Seu nome era Lin Hsi,
e admirava Lao Tsé pela paz que fluía da sua pessoa.
Ao alcançar uma idade avançada e pressentindo que a China seria invadida pelos
mongóis, Lao Tsé decidiu deixar o Império saindo pelo portão Oeste, rumo à Ásia
central. Foi quando o soldado Lin Hsi o tomou como prisioneiro.
- Amigo, sou muito velho para participar da guerra. - disse Lao Tsé.
- Não queira me enganar! - disse o soldado - Sei quem você é! Durante anos
segui-o pelo bosque nas suas caminhadas ao amanhecer. Os milagres aconteciam
sob sua sombra por onde você passava. Portanto, você deve ser um santo, um
mestre ou um sábio.
- Agora o reconheço, - disse Lao Tsé - algumas vezes senti sua presença, ao
longe, no bosque.
O soldado o levou até sua casa, e disse:
- Registre para mim um pouco da sua sabedoria. Não quero que a História deixe
de saber quem foi Lao Tsé. Escreva um livro antes de partir. Enquanto isso será
meu prisioneiro.
É claro que ficaram amigos e Lao Tsé se tornou seu hóspede. Após um pernoite,
escreveu 5000 palavras que chamou de "TAO TÉ CHING" ou "Livro do
Caminho Perfeito". A sua linguagem misteriosa e condensada, não admite
leitura superficial, pois só vai sendo revelada aos poucos conforme o leitor
abre seu coração à Verdade.
A partir do livro surgiu o "Taoísmo", filosofia que inspirou
Confúcio, serviu de base do Budismo Ch'an ou Zen, e cuja influência é
indiscutível no pensamento da China.
Talvez a maior virtude de Lao Tsé fosse a humildade. Ele dizia:- SABEIS
PORQUE O MAR E OS RIOS SÃO SUPERIORES AOS RIACHOS DAS MONTANHAS? POIS, PORQUE
SABEM MANTER-SE SEMPRE ABAIXO DELES.Conhecedor profundo do ser humano,
sabia que todos vivemos em dois mundos paralelos: o mundo exterior e o mundo
interior ou sutil. Às vezes, o passado se torna mais importante que o presente.
Às vezes, o sonho é mais real que a realidade.
Nos escritos de Chuang Tsú, mestre taoísta do século III a.C., narra-se um
sonho que teve Lao Tsé, descrito com seus próprios versos:"SONHEI QUE
ERA BORBOLETA.
E FOI UM SONHO TÃO REAL
QUE AO ACORDAR,
EU NÃO SABIA MAIS
SE ERA UM HOMEM
QUE SONHOU QUE ERA BORBOLETA
OU UMA BORBOLETA
SONHANDO QUE ERA HOMEM".