Enquanto seres dotados de vontade e consciência, de impulsos e desejos, de enraizadas crenças e aspirações abstratas, nos engajamos em uma perpétua busca de significados, de experiências e de sensações que nos lancem para fora da órbita cotidiana das amenidades. Mesmo que apenas por alguns momentos, almejamos ser arrebatados, surpreendidos, decifrados.
Sabemos, lá no fundo, que movimento gera vida, e que vida significa possibilidade de renovação. Nas palavras de Blimunda, a personagem de José Saramago no romance Memorial do Convento, morre quem fomos, nasce quem somos. É assim que o universo, tal qual o percebemos, foi criado.
Estufamos o peito e saímos à procura do que sentimos ser nosso por direito. Escavamos e destrinchamos, em memórias e diálogos, em referências visuais, musicais e sensoriais, instrumentos que possibilitem a expansão de fronteiras já obsoletas, outrora tidas como intransponíveis. Vamos à caça de horizontes mais longínquos. Lutamos por espaço e por paradigmas frescos, ainda que desafiadores.
Ao pisar na rua, ouvimos nosso nome soprado no vento, sussurrado por uma voz selvagem, inegavelmente sedutora e familiar. Do outro lado de cada porta, de cada cerca, de cada floresta, há uma canção ancestral que nos atrai, que nos chama, que nos faz enfrentar nossos medos mais medonhos e disparar em sua direção. Essa melodia brota da própria terra, embala nossos movimentos, e é ao seu ritmo que queremos dançar.
Para repor nosso estoque de sonhos, de potencial, de esperança, trilhamos caminhos errantes que nos levam a explorar os cantos mais insólitos dessa incrível e vasta superfície terrestre.
Somos as crianças curiosas e indefesas que erguem as mãos na tentativa de tocar o sol, a fonte do calor. Assim, moldamos as perguntas às múltiplas, sempre múltiplas, respostas que nos cercam. Vislumbramos o conhecimento, apenas para dispensá-lo no minuto seguinte.
Como afirmou Saramago, com sua invejável mania de escrever a realidade, "o homem primeiro tropeça, depois anda, depois corre, um dia voará"!