Seria. Com o apoio de algumas dezenas de pessoas presentes no estande de Deodoro, vestindo sua jaqueta verde que é bem mais brasileira que chinesa (e que combina um bocado com prata!), diante dos olhos da namorada, a também atiradora Rosane Budag, ele deu ao Brasil a primeira medalha do país na Olimpíada do Rio. Fez o que precursores fizeram tanto tempo atrás, lá em 1920, quando o Brasil ganhou com o tiro esportivo suas primeiras medalhas na história da Olimpíada.
E foi no sufoco. Foi na raça - danem-se os teóricos: deve ter raça até no tiro. Na classificatória, passou raspando, em sétimo, o penúltimo dos oito garantidos. A final já era uma façanha. Como exigir uma medalha? Os dois últimos campeões olímpicos estavam ali - um chinês e um sul-coreano, porque esses orientais atiram que é uma beleza.
Mas Felipe também atira. E os adversários, um a um, foram vendo isso - com olhos fechados, olhos abertos, olhos esbugalhados. Saiu o indiano - ficaram sete. Saiu o russo - restaram seis. Caiu o italiano - sobraram cinco. E Felipe ali, somando pontos: opa, terceiro!; opa, segundo!; opa, primeiro!
E aí, quem diria, o Brasil se flagrou torcendo por um atirador - vibrando por disparo no alvo como se vibrasse por chute no gol. Eram gritos, cantorias, bandeiras balançando em Deodoro. Era o milagre olímpico: nós, um bando barulhento de Wus.
- Até hoje de manhã eu falava que a torcida não fazia diferença para o tiro esportivo. Mas essa barulheira me deu uma energia muito boa.
Sobraram três. A medalha era certa. E então sobraram dois. A prata era certa. E então Felipe atirou. E quando ele atirou, o painel mostrou lá em cima, que era para não deixar dúvida: ele estava na liderança.
E só faltava um tiro. Um só. Felipe atirou, e aqueles segundos entre o barulho do disparo e a confirmação da nota são milênios, são civilizações passando. Até que apareceram os três números com um ponto entre eles: 10.1. Excelente tiro.
Mas não tão excelente quanto o impressionante 10.7 do vietnamita logo em seguida. No último tiro, no último suspiro, Hoang ultrapassou Felipe. Ficou com o ouro - e deu a prata ao brasileiro.
Decepção? Que nada. Duas ou três piscadas de olho depois, Felipe já tinha o nome gritado, já celebrava, já era o mais feliz dos brasileiros. Restava esperar o pódio, erguer o braço enquanto a torcida cantava o hino nacional e começar a viver essa vida de medalhista olímpico.