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A GRANDE SECA

Publicada em 27/01/24 as 09:31h por José Nilton Fernandes - 103 visualizações

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 (Foto: Reprodução Google)

Manuel Bernardo e sua mulher, Senhorinha Garcia, após o casamento, chegaram à cidade de Aracati por volta do ano 1900, indo fazer morada, já no dia seguinte, em terras ermas ao norte do Sítio Cumbe.  Ele, provinha do lugarejo Forquilha, enquanto ela, da Lagoa do Arroz. Eram meus queridos avós maternos.

O ano de 1915 - a grande seca - trouxe-lhes imensas dificuldades. A agricultura, totalmente perdida; os animais de criação, morriam aos montes. Viam-se urubus, ora vigorosos, pousados às centenas nos galhos secos das árvores, num grasnar contínuo, comendo solenemente no repasto de pelancas de animais mortos. A vida já se avizinhava dos umbrais da morte. E o Ceará se tornou morada da infelicidade, como que anunciando o fim de tudo... 

Vovó Senhorinha tinha em mente, apenas, como iria remediar a falta de alimentos. Mesmo nesse estado, vez por outra, destampava a panela de suas lembranças, para encontrar num dos escaninhos os poucos familiares que havia deixado em seu lugarejo de nascimento. Como estariam! Sofrendo também, certamente, talvez em maior grau. Era 27 de novembro, um sábado, marcado por incertezas... 

Do alpendre sombreado, de costas para o poente, avistaram uma multidão caminhando a passos lentos e arrastados, cujos integrantes eram encobertos por torrões de terra reduzidos a pó, os quais escondiam seus verdadeiros sentimentos. O então desconhecido bando provocava incomum alarido, assustando os animais domésticos sobreviventes, já cambaleantes, desertos de força vital. Ante os olhos da vovó era um sobrosso... 

Detiveram-se frente ao alpendre, quando suas carências e suas magrezas se tornaram ainda mais visíveis. Pareciam amistosos. O estado das crianças, algumas de peito, causava arrepios. 

Um indivíduo alto, moreno, calvície chegando, supostamente líder desse exército de sofrimentos se apresenta, humildemente, para em seguida, com voz baixa e pausada, perguntar por Manuel Bernardo, sem, contudo, se identificar. 

Sou eu! Bradou com rispidez meu avô, como se estivesse pronto para um embate, embora seu brando coração já sinalizasse doce acolhimento. Que desejam? 

- Somos da Forquilha e do Medeiros, donde a terrível seca nos obrigou a fugir; cá estamos pedindo arrego. Viajamos uns quarenta quilômetros até aqui, sempre a pé. Por sugestão do meu pai, seu tio, falecido durante o percurso, aqui chegamos, finalizou o triste orador, ora se apresentando: meu nome é Ambrósio Bernardo. 

Momentos de silêncio se sucederam, entrecortados, aqui e ali, por sentidos choros infantis, de origem famélica, já que o relógio da carência alimentar há muito havia disparado. Meu avô apascentou o bando faminto dando-lhes comida e água, com parcimônia, pois, mesmo que a ação fosse caritativa, poderia comprometer a sobrevivência dos seus. O barracão ao lado da casa serviu-lhes para abrigo. 

Com vistas a não se expor a riscos da falta de alimentos para os seus familiares, meu avô lhes ensinou a capturar caranguejos, já que vigorosos manguezais adornavam um braço do Rio Jaguaribe que cortava a propriedade. O mundo aquático salgado, ainda exuberante, impressionou os banidos pela seca. Causaram-lhes arrepios, entretanto, a esquisita aparência dos caranguejos. Era o cardápio existente: jamais iremos comer essas horríveis aranhas, disseram, em uníssono.

 Vovô Manuel engoliu seco, baixando o cenho. Sabia, por experiência, que o paciente e inexorável tempo se encarregaria em dissipar essas impressões. 

Certo dia, rareando os animais de caça, e diante das incessantes e justas reivindicações das tripas, esses retirantes se renderam. Enfurnaram-se, finalmente, nos manguezais e de lá voltaram enlameados da cabeça aos pés, à exceção dos olhos. Foi um lauto jantar de caranguejos, tendo como guarnição apenas pirão escaldado. Especializaram-se nesse ofício e nunca mais voltaram aos seus lugares de origem.

Que aprendamos com o que sugere o texto: qualquer dificuldade na vida, a solução deve partir de nós mesmos...

 Fortaleza, 25 de janeiro de 2024

José Nilton Fernandes 




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